sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Quando eu me for

Quando eu me for, os caminhos continuarão andando...
E os meus sapatos também!
Porque os quartos, as casas que habitamos,
Todas, todas as coisas que foram nossas na vida
Possuem igualmente os seus fantasmas próprios,
Para alucinarem as nossas noites de insônia!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Atraso

Acordo atrasada
Chego atrasada
Entrego atrasada
Corro! Mas não alcanço.
Venho atrasada
Vou atrasada
No subterrâneo meus nervos se contraem,
mas ninguém viu.
Amanhã, num horizonte de expectativa primaveril, vai ser diferente
tudo acontecerá numa pontualidade britânica
No entanto, amanhã parece sempre ser o mesmo dia de hoje
Em atraso!

domingo, 11 de maio de 2008

Às vezes me falta o ar e fica difícil saber quem eu realmente sou.
Fico entre o ser e o vir-a-ser
Como mãos trêmulas que não conseguem riscar uma linha reta
Eu, algumas vezes me acho no meio de escolhas inusitadas e impensadas
Que quando olho para trás vejo um caminho tortuoso
Há alguma semelhança com uma folha levada pelo vento...
Sem resistência vai sendo levada pela força ininterrupta da vida

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Angústia

Angústia é se ver partido por quem você quer bem
Sentir-se preso pelo sentimento que não se dissipa
Vai amordaçando cada lágrima
Que não parti, permanece nas entranhas dos turbilhões que nunca vão embora

Agonia de perceber o quão levianas são as situações
A vida passa sem que tenhamos coerência
Buscá-la incessantemente sem jamais alcançar
Sendo ilimitado o horizonte de expectativas

Clausura dos sentimentos que por agora tomam conta
Encerro-me num lugar recôndito, mente
Mas neste silêncio apenas se escuta uma pulsação

Aquela que nunca parou
Sempre esteve ali e que independe se estamos bem ou mal
Não importa o lugar onde você se meteu

A pulsação do que é mais essencial e que não nos abandona
Mesmo quando faço tudo por abafar
A necessidade de estar e permanecer sem jamais titubear
Sempre de uma lealdade canina

Espreita... e atrelada a ela
vem a angústia, agonia, amor...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Todos os dias eu parto
em direções que já não me lembro mais
Alguns dias eu me desfaço
vou derramando gotas de ser

Cada dia parece que me esfacela mais um pouco
Ao longo do caminho vou perdendo o que não consigo conceber
Vai-se muito mais do que palavras
As tristezas vão... esparsas

Em espirais que o vento vai formando
Ele parte todos os dias
Não se sabe nunca em que direção
Leva tudo, até este sorriso que a pouco me deste

Virou memória...
isto é o que se ganha ao longo do caminho